Notícias Gerais página inicial | voltar

25/06/2008

Setor de calçados perde um dos seus maiores ícones

O setor de calçados perdeu no dia 16 de junho um dos seus maiores ícones, criador e mestre na arte de fazer calçados. Aos 84 anos, faleceu em Novo Hamburgo José Maria Carrasco Mena.

Estilista espanhol, chegou ao Brasil e ao Vale do Sinos há mais de 50 anos, quando a indústria de calçados começava a despontar. Carrasco trouxe da Europa conhecimento técnico, inovação e paixão pela arte de criar calçados. Também foi pródigo em partilhar seu conhecimento com várias gerações de sapateiros. Durante décadas dirigiu a escola de estilistas José Carrasco e continuava ensinando até poucos dias antes de sua morte. Em 1989 fundou a Abeca - Associação Brasileira de Estilistas de Calçados e Afins, da qual foi presidente até 1996.

Em sua longa trajetória, Carrasco formou muitos dos profissionais que estão hoje no mercado de calçados e acessórios. Ao empresário e presidente da Couromoda, Francisco Santos, Carrasco ensinou o amor pelo calçado. “Com ele fiz meu primeiro trabalho no setor, no início da década de 70, quando produzimos uma desfile para o Grupo Strassburguer, na época a maior indústria brasileira de sapatos”, diz Santos. “Garoto do interior, tive com Carrasco aulas de como ser requintado sem ser esnobe, arte que ele exercia com maestria, misturando sua classe européia com o jeito simples dos calçadistas brasileiros, que davam seus primeiros passos no mercado mundial do calçado.”

Francisco Santos prossegue: “Lamento tão tê-lo visto mais recentemente, pois gostaria de enviar um abraço ao Ruy Chaves e ao De Nicola, dois amigos queridos que por certo estão com ele agora, discutindo as tendências da estação. Mas a carta do Airton Dias, que estamos publicando, reflete o sentimento de muitos brasileiros para com este que foi um dos grandes lideres do design e da criação, em grande parte responsável pelo sucesso que nosso país alcançou no mundo do calçado”, declara Santos.

CARTA ABERTA AO MESTRE DO DESIGN BRASILEIRO,
JOSE MARIA CARRASCO MENA

Por Airton Manoel Dias, consultor e diretor do Fórum Couromoda


“Caro amigo Carrasco,

Nesta nova fase da sua vida, é possível que você esteja se deparando com um problema - talvez inesperado para você - mas não para nós, seus admiradores.
Falo da enorme quantidade de mensagens que seus incontáveis seguidores, amigos e discípulos estão lhe enviando e atulhando sua mesa de leitura.

Pois é, Carrasco.... Isso é que dá ter construído toda uma vida de trabalho exemplar, de ter sido absolutamente competente no que fez e de ter criado, mais do que uma escola de estilismo, uma escola de dignidade pessoal e profissional, dentro de um mercado competitivo e difícil, sem nunca perder a classe, a postura e a educação que tanto lhe caracterizaram.

Como tive a sorte e o prazer de conviver com você em várias circunstancias, peço permissão para juntar-me a tantos outros e colocar este texto descompromissado na pilha dos que ainda você terá que ler e relembrar, com aquela saudade positiva de quem partiu sem deixar tristezas.

Começo lá pelos anos 1971 ou 1972, no início da minha carreira no mercado calçadista, quando queria aprender tudo sobre sapatos. Diante disso um amigo comum imediatamente recomendou: “veja se o Carrasco pode te atender. Acho difícil, mas vale tentar...”.
Convencer a Alpargatas que um jovem recém-empregado queria um período de licença para “estudar” sapatos, com um “modelista” chamado Carrasco, foi a primeira grande dificuldade. A segunda foi convencê-lo a aceitar-me como “aprendiz ou estagiário”. Afinal, o que seria possível fazer em apenas 20 dias com quem nada conhecia de sapato?

A influência do amigo comum funcionou e lá fui eu, de São Paulo para Novo Hamburgo, de onde voltei totalmente apaixonado por sapatos, contaminado pelo entusiasmo do Carrasco e levando de graça na bagagem várias novas palavras de um idioma estranho, às vezes difícil de compreender, parecido com o que hoje chamamos de “portunhol”... Tudo acompanhado de boas histórias, muitas delas sobre a sua origem espanhola, sobre as relações de seus antepassados com o grande Cervantes e de sua chegada ao Brasil.

Alguns anos depois, assisti as disputas silenciosas e gostosas entre você, o De Nicola e o Ruy Chaves, os nossos três mosqueteiros do design independente brasileiro. Durante a Fenac essa “concorrência” ficava um pouco mais acirrada, com muita gente achando que vocês realmente não se davam, enquanto outros afirmavam que tudo era jogo de cena. Até hoje, muitos que viveram essa época preciosa do nosso design, ainda permanecem em dúvida...
Seus desfiles, até hoje lembrados, eram disputadíssimos. Era importante ser um dos convidados para o desfile na lindíssima casa do Carrasco, que se a memória não me falha, localizada no Morro Heller. E como você gostava disso!
Você não conseguia esconder sua satisfação pelo agito gerado, pela festa do nosso design, da criação independente, feita pelo espanhol mais brasileiro que o Brasil conheceu.
Não vou aqui lembrar das longas explicações sobre suas criações, como o pantógrafo, das soluções para a produção em série, para as linhas de produção. Um designer sempre preocupado com adequação técnica da modelagem, com aumento da produtividade, do aproveitamento da matéria-prima, com a redução dos custos e não apenas com a criação de mais um belo modelo...
Fora do dia-a-dia, você sempre gostou de relembrar suas relações com as indústrias e empresários famosos, muitos dos quais ainda em começo de carreira.

Mas neste texto, se você me permite, vou falar de uma pessoa especial para nós dois e que você gostava de relembrar. Falo daquele quase garoto que a vida colocou em seu caminho, ou melhor, dentro do seu ateliê, lá pelos anos 70, e que passou a ajudá-lo na prestação de serviços aos seus clientes.

Desses primeiros passos em seu ateliê, talvez poucos saibam que nascia um empresário criativo e que alguns anos depois mudaria o perfil da promoção comercial brasileira, transformando-se num importante líder do setor, sem produzir um único par de sapatos: Francisco Santos e sua Couromoda.
Sei que você muito se orgulhava de ter acompanhado e viabilizado esses primeiros passos do Francisco no mercado do calçado. Mas saiba você também que sou testemunha das boas lembranças do Francisco por esse fato e do enorme respeito dele para com você. Acho que não estou contando nenhuma novidade, mas me senti na obrigação de registrar esse carinho dele e de todos nós para com você.

Dos nossos vários “encontrões” pelas feiras e cidades da Europa na década de 80, em busca de informações e tendências, lembro de cenas engraçadíssimas de gente conhecida fazendo “ginástica” para fotografar estandes e vitrines, num esforço para não serem descobertos.... Quanta gente “expulsa” das feiras pelos seguranças. Lembra?

Diante desses momentos hilários, acho que você deve se recordar de uma frase que me acompanha até hoje: “O brasileiro precisa aprender a enxergar o mercado e não só a fotografar vitrine...”.

Você Carrasco, era tão diferente que nunca se preocupou em guardar ou sonegar seus conhecimentos, a ponto de ter fundando a Abeca - Associação Brasileira de Estilistas de Calçados e Afins. E de criado uma apostila, creio que em 1979, (tenho uma comigo até hoje), na qual abriu todo seu conhecimento e colocou ao alcance do leigo um verdadeiro curso superior de modelagem, design e tecnologia da fabricação.

Nosso reencontro profissional deu-se no início dos anos 90, quando eu o contratei para dar um “choque de conhecimento em técnica no desenvolvimento do sapato” para os profissionais da Cambuci/Penalty. Naquela ocasião encontrei o mesmo Carrasco de sempre, esbanjando energia, repleto de idéias novas e com a mesma motivação que o caracterizou por toda a vida.
Com saudade precoce, mas sem tristezas, eu e todos seus amigos próximos e distantes o saudamos com um brinde a uma vida repleta, gloriosa e inesquecível! Carrasco, uma marca indelével, uma referência, um nome a ser lembrado”.

 

envie este texto
para um amigo
versão para impressão