CARTA
ABERTA AO MESTRE DO DESIGN BRASILEIRO,
JOSE MARIA CARRASCO MENA
Por Airton Manoel Dias, consultor e diretor do Fórum Couromoda
“Caro amigo Carrasco,
Nesta nova fase da sua vida, é possível que você esteja
se deparando com um problema - talvez inesperado para você - mas não
para nós, seus admiradores.
Falo da enorme quantidade de mensagens que seus incontáveis seguidores,
amigos e discípulos estão lhe enviando e atulhando sua
mesa de leitura.
Pois é, Carrasco.... Isso é que dá ter construído
toda uma vida de trabalho exemplar, de ter sido absolutamente competente no que
fez e de ter criado, mais do que uma escola de estilismo, uma escola de
dignidade pessoal e profissional, dentro de um mercado competitivo e difícil,
sem nunca perder a classe, a postura e a educação que tanto lhe
caracterizaram.
Como tive a sorte e o prazer de conviver com você em várias circunstancias,
peço permissão para juntar-me a tantos outros e colocar este texto
descompromissado na pilha dos que ainda você terá que ler e relembrar,
com aquela saudade positiva de quem partiu sem deixar tristezas.
Começo lá pelos anos 1971 ou 1972, no início da minha
carreira no mercado calçadista, quando queria aprender tudo sobre sapatos.
Diante disso um amigo comum imediatamente recomendou: “veja se o Carrasco
pode te atender. Acho difícil, mas vale tentar...”.
Convencer a Alpargatas que um jovem recém-empregado queria um período
de licença para “estudar” sapatos, com um “modelista”
chamado Carrasco, foi a primeira grande dificuldade. A segunda foi convencê-lo
a aceitar-me como “aprendiz ou estagiário”. Afinal, o que seria
possível fazer em apenas 20 dias com quem nada conhecia de sapato?
A influência do amigo comum funcionou e lá fui eu, de São
Paulo para Novo Hamburgo, de onde voltei totalmente apaixonado por sapatos, contaminado
pelo entusiasmo do Carrasco e levando de graça na bagagem várias
novas palavras de um idioma estranho, às vezes difícil de compreender,
parecido com o que hoje chamamos de “portunhol”... Tudo acompanhado
de boas histórias, muitas delas sobre a sua origem espanhola, sobre as
relações de seus antepassados com o grande Cervantes e de sua chegada
ao Brasil.
Alguns anos depois, assisti as disputas silenciosas e gostosas entre você,
o De Nicola e o Ruy Chaves, os nossos três mosqueteiros do design
independente brasileiro. Durante a Fenac essa “concorrência”
ficava um pouco mais acirrada, com muita gente achando que vocês realmente
não se davam, enquanto outros afirmavam que tudo era jogo de cena. Até
hoje, muitos que viveram essa época preciosa do nosso design, ainda permanecem
em dúvida...
Seus desfiles, até hoje lembrados, eram disputadíssimos. Era importante
ser um dos convidados para o desfile na lindíssima casa do Carrasco, que
se a memória não me falha, localizada no Morro Heller. E como você
gostava disso!
Você não conseguia esconder sua satisfação pelo agito
gerado, pela festa do nosso design, da criação independente, feita
pelo espanhol mais brasileiro que o Brasil conheceu.
Não vou aqui lembrar das longas explicações sobre suas criações,
como o pantógrafo, das soluções para a produção
em série, para as linhas de produção. Um designer
sempre preocupado com adequação técnica da modelagem,
com aumento da produtividade, do aproveitamento da matéria-prima, com a
redução dos custos e não apenas com a criação
de mais um belo modelo...
Fora do dia-a-dia, você sempre gostou de relembrar suas relações
com as indústrias e empresários famosos, muitos dos quais ainda
em começo de carreira.
Mas neste texto, se você me permite, vou falar de uma pessoa especial
para nós dois e que você gostava de relembrar. Falo daquele
quase garoto que a vida colocou em seu caminho, ou melhor, dentro do
seu ateliê, lá pelos anos 70, e que passou a ajudá-lo na prestação
de serviços aos seus clientes.
Desses primeiros passos em seu ateliê, talvez poucos saibam que nascia
um empresário criativo e que alguns anos depois mudaria o perfil da promoção
comercial brasileira, transformando-se num importante líder do setor, sem
produzir um único par de sapatos: Francisco Santos e sua Couromoda.
Sei que você muito se orgulhava de ter acompanhado e viabilizado esses primeiros
passos do Francisco no mercado do calçado. Mas saiba você também
que sou testemunha das boas lembranças do Francisco por esse fato e do
enorme respeito dele para com você. Acho que não estou contando nenhuma
novidade, mas me senti na obrigação de registrar esse carinho dele
e de todos nós para com você.
Dos nossos vários “encontrões” pelas feiras e cidades
da Europa na década de 80, em busca de informações e tendências,
lembro de cenas engraçadíssimas de gente conhecida fazendo “ginástica”
para fotografar estandes e vitrines, num esforço para não serem
descobertos.... Quanta gente “expulsa” das feiras pelos seguranças.
Lembra?
Diante desses momentos hilários, acho que você deve se recordar
de uma frase que me acompanha até hoje: “O brasileiro precisa
aprender a enxergar o mercado e não só a fotografar vitrine...”.
Você Carrasco, era tão diferente que nunca se preocupou em guardar
ou sonegar seus conhecimentos, a ponto de ter fundando a Abeca - Associação
Brasileira de Estilistas de Calçados e Afins. E de criado uma apostila,
creio que em 1979, (tenho uma comigo até hoje), na qual abriu todo seu
conhecimento e colocou ao alcance do leigo um verdadeiro curso superior
de modelagem, design e tecnologia da fabricação.
Nosso reencontro profissional deu-se no início dos anos 90, quando eu
o contratei para dar um “choque de conhecimento em técnica no desenvolvimento
do sapato” para os profissionais da Cambuci/Penalty. Naquela ocasião
encontrei o mesmo Carrasco de sempre, esbanjando energia, repleto de idéias
novas e com a mesma motivação que o caracterizou por toda a vida.
Com saudade precoce, mas sem tristezas, eu e todos seus amigos próximos
e distantes o saudamos com um brinde a uma vida repleta, gloriosa e inesquecível!
Carrasco, uma marca indelével, uma referência, um nome a
ser lembrado”.